No México. Durante a edição 2019 do Consumer Electronic Show, realizada há alguns dias em Las Vegas, inúmeros dispositivos conectados foram mostrados, como telas de vídeo (Samsung Serif), torneiras de água (Sensate Touchless Kitchen Faucet de Kohler) e até mesmo uma lata de lixo (lixeira simples humana) que recebe comandos de voz. É até provável que durante o final do ano muitas famílias mexicanas receberam alguns eletrodomésticos que integram serviços de reconhecimento de voz.
Mas isso é só o começo. Nos próximos anos, o número e a diversidade de eletrodomésticos que integram capacidades de gravação e transmissão de áudio e vídeo para fins como detectar motoristas cansados ou controlar o funcionamento de todos os tipos de eletrodomésticos, controlar o ar condicionado ou até mesmo ordenar que o forno aqueça alimentos antes de chegar em casa aumentará.
Infelizmente esses aparelhos são o sonho de qualquer espião, pois eles têm a capacidade de gravar imagem e voz continuamente e transmitir essas informações via Internet para empresas e organizações que armazenam e processam os dados coletados. Isso tem profundas implicações éticas e legais em relação à propriedade dos dados coletados, bem como a proteção contra seu uso por terceiros, incluindo governos.
Essas consequências não são meros exercícios teóricos. Em 2017, uma empresa de brinquedos de pelúcia capaz de gravar som expôs um hacker a gravações e informações pessoais de centenas de milhares de pais e filhos que usam o brinquedo. No ano passado, a dona de um alto-falante inteligente descobriu que conversas com seu parceiro haviam sido gravadas e o áudio enviado para um contato sem a autorização do proprietário e como se isso não bastasse em novembro passado, um juiz dos EUA ordenou a um fabricante de alto-falantes inteligentes que entregassem áudios relacionados a um duplo homicídio que a buzina gravou durante o crime.
Como proteger essa nova frente de extração e processamento de informações pessoais? Ao contrário de computadores e dispositivos móveis, como celulares e tablets, às vezes os fabricantes desses dispositivos são pequenas empresas que não tornam públicas suas políticas de aquisição e retenção de dados, além da falta de uma tela é difícil ajustar os parâmetros operacionais de muitos desses dispositivos. No entanto, com atenção suficiente, é possível integrar esses dispositivos de forma segura e saudável em nossas vidas diárias.
Antes da compra
- Verifique se o fabricante é honesto com suas políticas de retenção de dados: A empresa que vende o dispositivo deve explicar de forma clara, explícita e preferencialmente em espanhol, o tipo de dados que o gadget coleta, como ele processa e se compartilha com terceiros. Aqui está um exemplo de uma empresa que explica detalhadamente esse processo de coleta e análise de dados.
- Confira se a empresa informa sobre a configuração dos parâmetros de segurança: Infelizmente as legislações (incluindo a mexicana) ainda não regulam os serviços de coleta e processamento de dados como imagem e vídeo de dispositivos domésticos, mas há empresas que explicam ao cliente detalhadamente os procedimentos para regular suas opções de privacidade.
Após a compra
- Limita a quantidade de dados coletados: Dependendo do fabricante, no momento do início do funcionamento do dispositivo doméstico é possível configurar através de opções de privacidade, como proibir o acesso do dispositivo a informações confidenciais, como o diretório telefônico do proprietário, bem como a quantidade e o tipo de informações pessoais enviadas ao fabricante.
- Habilite comandos de uso: Quase todos os dispositivos domésticos que gravam imagem e som têm alguma opção que permite que você comece a gravar e enviar dados para o fabricante por meio de um comando como OK Google ou Hey Alexa. É aconselhável habilitar essa opção, a fim de restringir a quantidade de dados que os dispositivos coletam e enviam para sua sede.
- Reveja as informações que a empresa tem sobre você: Algumas empresas permitem que o usuário revise e até exclua o histórico de dados coletados pelos dispositivos da casa. É aconselhável revisar periodicamente este histórico para saber o que o dispositivo sabe sobre você e, em determinado caso, excluir as informações que se considera pertinentes.
Texto escrito pelo Instituto de Direito das Telecomunicações, IDET.